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Sejamos proativos nas questões relacionadas às mudanças climáticas, pois não seremos poupados de seus efeitos devastadores a curto e longo prazo.
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quarta-feira, 2 de abril de 2014

FOME E ADAPTAÇÃO: RELATÓRIO DO IPCC ALERTA PARA RISCOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS



Adaptação — este foi o tom de um importante relatório climático divulgado em 31 de março pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), grupo internacional de pesquisadores reunido pelas Nações Unidas para a elaboração de estudos científicos sobre as mudanças climáticas com possíveis implicações em termos de políticas públicas. Segundo o dito relatório, os desafios de um planeta em transformação também afetam os países mais ricos, mas deverão afligir as populações pobres com maior intensidade.
“A mudança climática alterou sistemas do Equador aos polos, do oceano às montanhas”, afirmou o biólogo Christopher Field, da Universidade Stanford, em conferência realizada na cidade de Yokohama, Japão. Field é codiretor do Grupo de Trabalho II do IPCC, equipe responsável pelo desenvolvimento do relatório (em inglês) que contou com as contribuições de 309 autores de 70 países, acrescidas dos milhares de comentários vindos dos pesquisadores revisores do trabalho.
Concluiu-se que as mudanças climáticas não são algo a ocorrer no futuro: elas já se fazem sentir nas vidas das pessoas de todo o mundo, uma vez que o clima de hoje não é o mesmo apresentado pelo planeta há apenas algumas décadas atrás, graças à queima de combustíveis fósseis, ao desmatamento e a outras atividades humanas. Portanto, vemos um princípio de adaptação — investimentos na mudança da orientação da matriz energética em direção a fontes mais limpas e renováveis, planejamento de uso responsável da água — guiando as ações governamentais e sociais.
Seleção natural
Projeto estudantil de Funafala, Tuvalu, no qual estudantes plantam vegetação típica de manguezais, cujo objetivo é o de estabilização costeira. A nação polinésia tende a sofrer com o aumento do nível do mar. Crédito: David J. Wilson
Os impactos da mudança do clima se estendem pelos ecossistemas e por esferas de atividade humana, como agricultura, infraestrutura e gestão de recursos hídricos, conforme realçado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, que parabenizou o esforço dos pesquisadores. Têm havido alterações na área ocupada por muitas espécies terrestres e marinhas e nos seus fluxos migratórios, bem como a imposição de ameaças de extinção advindas da acidificação dos oceanos e da introdução de parasitas com os quais os animais e plantas de determinado habitat não estão habituados.
Todavia, o relatório aponta que algumas questões sejam mais evidentes, dentre as quais a influência negativa das mudanças climáticas sobre a agricultura. Em geral, as lavouras de milho e trigo, por exemplo, foram mais prejudicadas por ondas de calor e pela seca do que beneficiadas pela concentração mais elevada de gás carbônico na atmosfera, com a notável exceção das produções de alguns locais no norte da Europa e no sudeste da América do Sul. O peso econômico da diminuição da produção não pode ser desconsiderado, tendo em mente toda uma classe de agricultores de subsistência (de baixa renda) e o constante aumento da demanda por víveres ocasionado pelo crescimento populacional e por níveis mais elevados de renda, especialmente nos países emergentes.
Ainda, situações climáticas extremas têm aumentado o número de casos e a gravidade de incêndios florestais e inundações, de forma que as mudanças climáticas podem intensificar a ocorrência de doenças como malária e dengue, tipicamente tropicais.
O relatório também não descarta a possibilidade de que agrupamentos humanos venham a se deslocar em busca de melhores condições de sobrevivência em virtude de desastres ambientais, novamente, tratando-se de um esforço adaptativo. Em seu trabalho em governos britânicos passados, o economista Nicholas Stern, da London School of Economics and Political Science, vinha alertando as autoridades quanto ao perigo das mudanças climáticas. Agora, ele extrai do relatório do IPCC a ideia de que, “durante este século”, essas mudanças “aumentarão o risco de populações humanas serem deslocadas” devido a enchentes e secas, bem como a desertificação e aumento do nível do mar.
Foco social e oportunidades
O relatório “Mudanças Climáticas 2014: Impacto, Adaptação e Vulnerabilidade” foi o segundo de três volumes publicados pelo IPCC. Ao contrário do primeiro relatório, que enfatizou as alterações físicas relacionadas à mudança no clima, a dissertação atual procurou destacar os aspectos sociais de um meio ambiente em transformação, privilegiando os riscos às pessoas e aos ecossistemas e os meios que as sociedades podem adotar para reduzir tais riscos. Discutiram-se instruções para a proteção de cidades litorâneas contra o aumento do nível do mar, por exemplo, além de alterações nas áreas dedicadas a pesca e agricultura.
Entretanto, ainda podemos nos prevenir de uma catástrofe maior caso cortemos nossas emissões de carbono. Os pesquisadores que conduziram os estudos físicos relativos à mudança climática, publicados em setembro de 2013, avaliaram que, desde 1880, 531 giga toneladas de carbono foram despejadas na atmosfera terrestre, e somente 800 giga toneladas podem ser emitidas para que tenhamos uma chance substantiva de manter o aquecimento global médio abaixo de 2 graus Celsius (cada giga tonelada equivale a 1 milhão de toneladas). Acima desse montante, o aquecimento provocaria uma maior probabilidade de “impactos severos, generalizados e irreversíveis”, informa o novo relatório.
Estima-se que o planeta tenha se aquecido em 0,85 °C desde 1880, o que torna o aquecimento global suficientemente “inequívoco” para Michel Jarraud, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial, outra agência climática da ONU. “A ignorância não é mais uma desculpa. Nós sabemos”, diz Jarraud.

segunda-feira, 31 de março de 2014

O USO DA CIÊNCIA SEM CONSCIÊNCIA – A IMPORTÂNCIA DA ÉTICA NA PESQUISA CIENTÍFICA.



O analista do Kings College Fellipe Gracio em seu artigo “Scientists can’t claim to be neutral about their discoveries”publicado no  “The Conversation” nos brinda com uma reflexão de visceral importância sobre a ética aplicada às pesquisas.
Nesse artigo ele questiona o quanto de isenção um cientista pode alegar, quando por fim suas descobertas são mal aplicadas e podem representar um perigo para a humanidade.

Essa sensação persegue a história humana, desde que inventos magníficos como o navio, o automóvel e o avião, foram transformados em máquinas de guerra.
Ou mesmo ante as brumas radioativas de Hiroshima e Nagasaki — Oppenheimer — o pai da bomba atômica — num discurso emocionado se autodenominar “a morte, o destruidor de mundos”.
Isso apenas para citar alguns poucos exemplos.
À medida que a pesquisa científica afeta o mundo convém ficarmos de sobreaviso.
Isso por que a ciência é feita por pessoas.
Detonação de uma Bomba Nuclear - Seus efeitos são duradouros
E todas as pessoas, mesmo sendo cientistas, possuem interesses, intenções e ambições.
Para agravar esse quadro, a ciência é financiada por governos e por empresas — cujas políticas podem nem sempre visar o bem comum – entendendo essa expressão, em seu sentido mais amplo como sendo o bem, em sua essência, estendido para toda a humanidade.
Fica cada vez mais claro que pesquisa científica atual, em seus passos mais decisivos, está condicionada às regras de financiamento, às expectativas sobre seus resultados e às forças sociais e de instituições que moldam seus rumos.
Ora vejamos:
·         Ninguém investe sem a expectativa de ganhar dinheiro com seu investimento;
·    Mesmo moralmente condenadas, a ambição e a ganância continuam a ditar as regras do mercado também no século XXI.
Ou não?
Na década de 1950, quando Jonas Salk — um dos cientistas que participou do desenvolvimento da vacina contra a poliomielite — foi questionado sobre se ele patentearia a vacina. Ele respondeu com outra pergunta:
— Você poderia patentear o sol?
Em outras palavras:
Pode um cientista propor ou aceitar a privatização de um conhecimento que beneficiaria a todos?
Existem duas linhas de pensamento sobre essa questão:
O primeiro viés advém de empresas (e de governos) que comercializam ciência e tecnologia e são detentores de muitas patentes.
Seu principal argumento pode ser assim resumido:
Como o investimento em programas de pesquisa científica é extremamente oneroso, tanto para empresas quanto para nações é natural oferecer garantia para os investidores de que ocorrerá o retorno desses investimentos. E tais garantias passam invariavelmente pela reserva de mercado e obviamente a privatização das descobertas, protegidas por leis de propriedade intelectual.
O argumento contrário à privatização dos resultados aponta que a restrição do uso de muitas descobertas atrapalha o aperfeiçoamento da própria descoberta, além de reprimir a inovação e o desenvolvimento de novos produtos.
Além de que, ao negar o benefício a outro ser humano se estaria também praticando uma forma de desumanidade.
Por exemplo,
A indústria farmacêutica Novartis tentou bloquear recentemente a fabricação na Índia de um medicamento genérico aplicado na terapia do câncer.
Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Ciências Econômicas, tem uma posição radicalmente contra as leis de propriedade intelectual.
Ele enfatiza que essa prática visa apenas garantir lucros exorbitantes para as desenvolvedoras, que por congelamento do desenvolvimento científico, certifica-se de não haver concorrência.
Pela lei dos mercados é fácil observar o que se resulta de um monopólio, seja em que área for.
Ele dá o exemplo da Myriad Genetics, uma empresa que alegou propriedade intelectual sobre genes humanos.
Este é um exemplo extremo, mas suas observações são amplamente aplicáveis ​​.
Ele explica que, neste caso:
Geneticistas têm argumentado que o registro de patentes sobre os genes realmente tende a impedir o aperfeiçoamento de vários testes genéticos (como prevenção de doenças genéticas, por exemplo) , e de modo geral, interferir com o avanço da própria ciência .
Todo o progresso científico é fundamento em conhecimento. Ao tornar-se esse conhecimento menos disponível impede-se o progresso, ou na melhor das hipóteses, torna-o menos imediato.
É fácil observar que o cientista está no centro deste processo e ele não pode mais se furtar das questões éticas envolvidas em seu trabalho.
Não pode mais evadir-se das questões pertinentes sobre a natureza do progresso científico, sobre as decisões de financiamento de suas pesquisas, ou quais forças estão por trás dos ditos investidores e quais são os interesses que servem.
Eu mesmo, não canso de repetir para meus alunos, que nossas decisões sobre as nossas carreiras afetam não só nossas vidas, mas também a dos que nos cercam.
Eu como cientista não posso alegar neutralidade em questões como esta.
Nenhum cientista pode.
E se Jonas Salk tivesse decidido trabalhar para uma empresa farmacêutica e patenteasse a vacina contra a poliomielite? Quantas pessoas morreriam, ou teriam sequelas por toda a vida?
Considere-se uma questão relevante para o futuro:
Se uma vacina contra a malária ou contra AIDS fosse desenvolvida, deveria ser protegida por registro de patentes, de tal forma que os preços desse monopólio maximizassem sua receita, mas não seus resultados na saúde pública?
De modo mais geral: os cientistas podem realmente justificar os resultados previsíveis dos projetos em que estão envolvidos?
O que deve ser feito, então, para maximizar o benefício da ciência visando o bem comum?
Para começar, podemos educar os cientistas e também fiscalizá-los.
E para isso é necessário que o cidadão busque inteirar-se do que vem a ser ciência e de qual é o real trabalho do cientista.
É preciso que cada um busque entender as decisões tomadas tanto pelos cientistas quanto pelas instituições de pesquisa e querer fazer parte delas.
É legítimo e necessário pedir aos cientistas e aos acadêmicos, e também às instituições, que justifiquem o uso que dão aos fundos de investimentos em pesquisa;
É justo fiscalizar as ações privadas e públicas nos programas sociais, e debater as prioridades políticas na esfera pública.
E também submeter as decisões sobre a investigação científica e suas metas de trabalho ao escrutínio da sociedade.
A ciência é uma força incrivelmente poderosa que consome uma grande quantidade de recursos, por isso precisamos ter certeza de que está sendo orientada numa boa direção e parta tal é necessário que cada cidadão procure cumprir com o seu papel.