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sábado, 5 de março de 2016

POR QUE MILHARES DE MULHERES ESTÃO USANDO AS REDES SOCIAIS PARA ABANDONAR A PÍLULA


Giovanna Raquel, 17, parou de tomar os comprimidos depois que teve uma embolia pulmonar
Imagem Erick Dau

"Pare de tomar a pílula/ porque ela não deixa nosso filho nascer." Era 1970 e Odair José cantava sobre os comprimidos que enfim separavam sexo e gravidez. Depois da revolução sexual da década anterior, a pílula significava liberdade para muitas mulheres.
Mais de quarenta anos depois, porém, brasileiras se dizem presas à pílula. Elas fazem parte de um movimento que vem crescendo nas redes sociais e discute como parar de tomar esse anticoncepcional e quais são os métodos alternativos a ele. No Facebook, grupos sobre o assunto chegam a ter 25 mil participantes.
Uma página, com 80 mil curtidas, ajuda a explicar o motivo: em "Vítimas de Anticoncepcionais, unidas pela vida", mulheres contam as experiências negativas que tiveram ao tomar os contraceptivos orais.
Os relatos vão de mudanças de humor a enxaquecas diárias e casos de trombose (formação de coágulo dentro de vaso sanguíneo). Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), contraceptivos com drospirenona, gestodeno ou desogestrel levam a um risco 4 a 6 vezes maior de desenvolver tromboembolismo venoso em um ano.
Os laboratórios que produzem as pílulas mais populares no país, Bayer (Diane 35, Yaz), Eurofarma (Selene) e Libbs (Elani Ciclo), afirmam que os benefícios para o corpo superam os problemas. Dizem também que os efeitos estão descritos na bula e, com orientação médica, o uso é seguro. Mesmo assim, as participantes dos grupos reclamam que o acompanhamento é insuficiente.
Páginas no Facebook reúnem mulheres que desistiram ou pretendem desistir da pílula 
Imagem Reprodução Facebook
"Nem todos os efeitos colaterais são falados pelo médico", diz a designer Gabriela, 28, que faz parte de grupos de discussão online. Usuária dos comprimidos desde os 19 anos, ela diz que tinha enxaquecas que duravam semanas.
"Quando as crises pioraram, eu vomitava. No meu aniversário, foi tão forte que, durante uma hora, perdi a visão completa de um olho."
Gabriela foi a vários neurologistas, que a aconselharam a parar com o anticoncepcional oral. Ela poderia ter uma trombose nos olhos. A recomendação é seguida há dez meses.
Mudanças de humor
Outra queixa recorrente são as mudanças de humor, também descritas nas bulas. Distúrbios psiquiátricos e estados depressivos estão nas contraindicações de vários medicamentos.
A relações públicas Carla Costa, 31, tem depressão e diz que, enquanto tomava a pílula, seu quadro piorava. "Em dois períodos do ciclo menstrual ficava muito deprimida, encolhida na cama, chorando sem motivo por horas. Isso parou de acontecer."
Na última cartela de comprimidos, a publicitária Maíra de Azevedo, 27, diz que decidiu parar com os hormônios porque seu emocional é como "um trem desgovernado". "Tenho todos os sintomas: dor de cabeça, enjoo e uma perda total da libido. Nunca quero saber de ninguém."
A ação do estrogênio e progesterona sintéticos - presentes na maioria dos anticoncepcionais hormonais - sobre o cérebro feminino é pouco conhecida.
“Meninas de 14, 15 anos começam (a ingerir) hormônios e nem entendem como o seu corpo funciona”, diz Débora - Imagem arquivo pessoal
No ano passado, um trabalho da Universidade da Califórnia em Los Angeles indicou que esses hormônios podem encolher certas regiões do cérebro ligadas ao controle emocional e alterar seu funcionamento.
Uma das pesquisadoras responsáveis pelo estudo, Nicole Petersen diz que "o mecanismo pelo qual isso pode ocorrer é completamente desconhecido neste momento". Apesar do potencial dano das pílulas, a pesquisadora pondera que algumas mulheres se beneficiam do uso e têm variações positivas de humor.
Professora do departamento de ginecologia da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, Carolina Sales também destaca os benefícios do medicamento, como a redução das possibilidades de câncer de ovário e de intestino. Ela atenta que o uso deve ser acompanhado de um ginecologista. Mas ressalta que nem sempre o profissional tem informações para a paciente.
"Na formação (do médico), há contato com poucos métodos. E as consultas são muitos curtas, o que diminui o tempo de orientação. A pílula é o mais fácil."
Para Sales, a falta de informação vale também para quem está do outro lado da mesa: "há um desconhecimento sobre as classes diferentes de hormônios. Elas colocam tudo no mesmo balaio."
Sem explicações
Todas as mulheres ouvidas pela BBC Brasil disseram procurar os grupos online - atitude geralmente pouco recomendada pelos médicos - porque seus ginecologistas não deram muitas explicações sobre outros métodos ou se recusaram a falar. Lá, trocam experiências sobre deixar a pílula (o que muitas vezes leva aumento de acne, oleosidade da pele e cabelos) e aprendem como funciona o DIU (dispositivo intrauterino), os métodos de percepção da fertilidade e a camisinha feminina.
"Na última vez, quando tentei largar o anticoncepcional, acabei trocando de pílula. Fui a vários médicos e sempre tenho a percepção de que queriam empurrar outra marca", diz Carla Costa, que abandonou o medicamento em novembro.
A ginecologista Halana Faria, do Coletivo Feminista Saúde e Sexualidade, diz que os médicos temem correr riscos, já que métodos como o DIU exigem mais tempo e cuidado. Se não for bem colocado, pode haver perfuração do útero. Além disso, se a mulher não se proteger nas relações, há chances de infecção.
"O médico presume que as mulheres não são capazes de manejar isso nas suas vidas. O discurso é moldado por aquilo que ele considera ser mais confortável. Já ouvi: 'não coloco mais DIU, por que vou me complicar?'".
Giovanna Raquel, 17 anos, ficou dois meses internada por causa de uma embolia pulmonar, que começou com uma dor nas pernas após início de consumo da pílula – Imagem arquivo pessoal
As comunidades na internet também reúnem muitas reclamações sobre ginecologistas que não pedem exames antes de receitar os comprimidos. As queixas vêm acompanhadas de relatos sobre problemas sérios de saúde.
Um dos depoimentos é da estudante Giovanna Raquel, de 17 anos. Ela ficou dois meses internada por causa de uma embolia pulmonar. Tudo começou com uma forte dor nas pernas, meses após começar com a pílula. Muitas consultas com ortopedistas depois, ela descobriu que tinha trombose.
"Um médico imaginou que fosse uma entorse (lesão nos ligamentos). Outro chegou a me chamar de manhosa. Disse que a dor não existia."
A entrevista com Giovanna foi feita por Facebook, já que ela estava de volta ao hospital. Suspeitava-se que o problema tivesse voltado.
Segundo os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), a obrigatoriedade de exames de rotina para rastreamento de trombofilias não é adequada, por causa da raridade das condições e do custo dos exames.
A BBC Brasil procurou o Conselho Federal de Medicina e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) para saber como os profissionais deveriam proceder nesses casos, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.
Tabu
Quando conseguem informações e decidem parar a pílula, as mulheres têm que explicar sua decisão para médicos, amigos e família. E esclarecer que isso não significa um bebê a caminho.
Em uma consulta, a estudante de relações públicas Nathalia Lira, 21, ouviu de sua médica que, sem os comprimidos, "logo logo engravidaria".
"Quando eu dizia que estava satisfeita só com o preservativo, ela pedia um exame Beta hCG, porque aparentemente eu poderia estar grávida a qualquer momento."
As amigas da assistente administrativa Renata Peixer, 25, ficaram apavoradas. "Elas perguntaram: 'Como você faz com seu namorado?' Você fala de DIU e elas não conhecem."
Prevendo as perguntas que viriam, a designer Gabriela preferiu não falar. "As pessoas te julgam muito. Na minha família ninguém sabe, nem na do meu namorado. Elas acham que vou engravidar e aí a responsabilidade vai ser minha."
Para quem escolhe os chamados métodos comportamentais, como a tabelinha (abstinência durante o período fértil) e a observação do muco vaginal (que vai mudando a cada fase do ciclo), a discussão é ainda maior.
Isso porque, segundo Febrasgo, OMS e Ministério da Saúde, esses métodos têm porcentagem de falha entre 1% a 25%. O da pílula vai de 0,1 a 8%.
Por isso, a ginecologista Halana Faria recomenda o uso combinado com a camisinha ou o DIU.
Nathalia desistiu dos comprimidos, mas ouviu da médica que logo engravidaria 
Imagem arquivo pessoal
É o que faz a funcionária pública Debora Londero, 26. Apesar de conhecer os aplicativos para celular lançados com o mesmo propósito, ela é adepta de riscar as folhas do calendário.
"Notei esses pequenas mudanças no corpo, que nunca tinha percebido. As meninas de 14, 15 anos começam (a ingerir) hormônios e nem entendem como o seu corpo funciona."
Halana Faria vê que a discussão cresceu nos últimos anos, num ambiente mais aberto às questões feministas e ao controle do próprio corpo.
"Os médicos dizem 'você está louca, sua mãe usava isso, você é moderna'. Mas não somos as mulheres que éramos antes. Estamos usando aplicativos para melhorar as coisas que as nossas avós já faziam."
Fonte: BBC

POR QUE SÓ HUMANOS TÊM QUEIXO - E PARA QUE ELE SERVE?


Raio-x de crânio humano – Imagem Alamy

Todos nós temos um queixo. Alguns, especialmente no mundo do boxe, parecem ter uns menos resistentes que outros – procure a expressão “queixo de vidro”. Mas o que poucos sabem é explicar a razão pela qual essa parte do corpo existe. Muita gente deve coçar o queixo à procura de uma reposta.
O mais estranho é que, entre todos os primatas, incluindo ancestrais humanos já extintos, nós somos os únicos a ter queixos. A razão ainda permanece um mistério, mas há um número de teorias tentando explicar para que serve o queixo.
James Pampush, da Universidade Duke, nos EUA, há anos estuda essa parte do corpo. “Ninguém jamais ofereceu alguma boa explicação de porquê de humanos são os únicos animais com queixos”, conta o acadêmico.
Em termos científicos, o queixo é uma protuberância óssea que aparece em frente à mandíbula. Nos chimpanzés, por exemplo, as mandíbulas são inclinadas para dentro.
Único
Como dissemos antes, antepassados humanos tampouco tinham queixo e este é um dos sinais que ajudam cientistas a distinguir anatomicamente, por exemplo, um homem moderno de um Neandertal.
“Isso faz o surgimento de queixos ser tão interessante. Implica que houve alguma forma de alteração comportamental ou dietética que causou essa formação”, explica Zaneta Thayer, da Universidade do Colorado, outro acadêmico a estudar o queixo.
Há três teorias proeminentes que tentam explicar o queixo. Há muito tempo se propõe que a protuberância nos ajuda a mastigar. O osso extra aliviaria o estresse da mastigação. Mas essa ideia esbarra no fato de que outros grandes primatas, com mandíbulas de formato similar ao humano, não padecem deste problema.
Quando mastigamos, nossas mandíbulas são forçadas e, o quanto mais abertas elas estiverem, mais fracos ficam os ossos. Se fôssemos nos proteger do estresse de mastigar, precisaríamos de mais ossos na parede interna das mandíbulas perto da língua, não debaixo do osso.
Queixos são, de certa forma, inúteis – Imagem Alamy
É exatamente o que vemos em chimpanzés e macacos. Eles contam com um osso extra em sua mandíbula inferior, chamado de plataforma símia. O osso extra que forma nosso queixo não é muito útil para dar mais força mastigatória.
E Pampush acrescenta que humanos não têm muitos problemas para mastigar, já que a maior parte da comida que ingerimos é macia, em especial a cozida.
Flora Groening, da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, concorda. Há cinco anos, ela criou um modelo de computador para analisar a carga mecânica nas mandíbulas com e sem um queixo. “Não encontrei evidências claras para sustentar a tese de que o queixo é o resultado de um adaptação mecânica”, afirma.
Queixos não parecem ajudar na mastigação – Imagem Alamy
Outros cientistas alegam que o queixo nos ajuda a falar, e que nossa língua necessita de reforços ósseos abaixo de nossa mandíbula. Afinal, somos os primatas com o mais extensivo repertório oral.
O problema aqui é que não precisamos de muita força para falar, então é difícil entender por que o osso extra ajudaria no processo. E, se realmente precisássemos dessa ajuda, seria muito mais útil, assim como no caso da mastigação, que o osso estivesse no interior da mandíbula e próximo à língua.
Colateral
A terceira ideia é que o queixo não tem um função imediata, mas que foi escolhido por seleção sexual. Seria o nosso equivalente, por exemplo, aos chifres de alces, ou às faces largas de orangotangos - características que atraem o sexo oposto para acasalamento. Isso assegura sua presença em gerações futuras, mesmo que não haja benefício ou uso direto.
Essa teoria, segundo Pampush, também é acompanhada de uma dúvida. Em todos os outros mamíferos, apenas um dos sexos terá um traço sexual selecionado. Mas os queixos são encontrados tanto em homens quanto mulheres. “Se o queixo é uma adaptação para a seleção sexual, então somos o único mamífero que tem o mesmo nos dois gêneros”.
Chimpanzés não têm queixo, assim como todos os outros primatas – Imagem Alamy
Sendo assim, as três hipóteses mencionadas anteriormente falham em explicar plenamente o surgimento do queixo. “Quem disser saber por que está mentindo”, diz Pampush.
Mas se examinarmos o problema de uma outra maneira, talvez fique um pouco mais aparente como o queixo se posicionou de forma tão proeminente em nossas faces, apesar de não ter uso funcional. Ele pode ser simplesmente um traço não-adaptativo, que surge com produto secundário de um novo processo.
Essa foi a ideia sugerida em 1979 pelos biólogos Stehphen J. Gould e Richard Lewontin. Eles dizem que o queixo é o que arquitetos chamam de tímpano – peças que auxiliam na sustentação de domos de igrejas, por exemplo.
As faces do homo sapiens são menores que a de antepassados e isso pode ter colocado o queixo à mostra, segundo Nathan Holton, da Universidade de Iowa. Para ele, o queixo pode ser um “efeito colateral” da redução de nossos crânios.
Nossa mandíbulas, por exemplo, são menos robustas que as de antepassados hominídeos já extintos. Quando nossos ancestrais descobriram o fogo e aprenderam a cozinhar, eles não mais precisavam de mandíbulas que mastigassem tão forte.
Outras coisas também mudaram: temos uma testa menos protuberante e um ponto oco abaixo de nossas bochechas. “A presença do queixo é provavelmente parte dessa tendência também. Entender por que temos queixos é explicar por que faces humanas encolheram”.
Groening também favorece essa ideia e diz que o surgimento do queixo pode ter ajudado a manter alguma da força que nossas mandíbulas anteriores um dia tiveram. “Neandertais e o homo erectus tinham mandíbulas robustas e não precisavam de ossos mais grossos na região do queixo”.
Em contrapartida, humanos modernos têm ossos mais delicados. “Um queixo pode oferecer resistência extra para manter uma certa força mecânica, mas não aumenta a força”.
Antepassados dos humanos não tinham queixo – Imagem Alamy
Se nenhuma das teorias parece satisfatória e não podemos provar a hipótese de que o queixo surgiu como uma evolução colateral, alguém pode perguntar a Pampush por que ele estuda o queixo humano há tanto tempo.
A resposta é simples: embora sejam estranhos, estudar queixos ajuda a localizar os processos evolucionários que nos fizeram o que somos hoje. E também ajuda a expor o trabalho da evolução.
E é também muito raro encontrar um traço evolucionário exclusivamente humano. Muitos dos que temos são compartilhados por outros animais. O queixo, no entanto, é único. E olhar para ele pode nos ajudas a entender outro passo que nos levou a ser o que somos.
Leia a versão original (em inglês).