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segunda-feira, 4 de abril de 2016

H1N1 - O QUE FUNCIONA E NÃO FUNCIONA, CONTRA O VÍRUS QUE JÁ CAUSOU MAIS DE 50 MORTES NO BRASIL


Infectologista defende que forma mais eficaz de prevenção é vacinar-se.
Imagem Osnei Restio

Nos últimos dias, o vírus Zika deu lugar ao H1N1 como principal preocupação dos brasileiros quando o assunto é saúde. Causador da chamada gripe suína e identificado no México há seis anos, ele já havia provocado 46 mortes no país até o último dia 19, a maioria em São Paulo – mais que em todo o ano passado, quando matou 36 pessoas.
O aumento de casos fora do inverno, quando o vírus se aproveita dos ambientes poucos ventilados para se multiplicar, intriga especialistas. A proliferação em locais bastante visitados por brasileiros, como a Flórida (EUA), e mudanças climáticas – a umidade é favorável ao H1N1 – estão entre as hipóteses levantadas.
Diante do surto, as pessoas recorrem ao álcool gel e evitam encostar nas barras do transporte público. Mas quão eficazes são essas medidas?
O QUE FUNCIONA:
Vacina
Para Jean Carlo Gorinchtein, do Instituto de Infectologia Emilio Ribas, não há dúvida: a forma mais eficaz de se prevenir do H1N1 é a vacina. Ainda que não tenha 100% de eficácia – ela varia de 60% a 90% – Gorinchtein ressalta a importância da medida, especialmente entre o "grupo de risco".
Crianças, idosos, grávidas e pessoas com doenças que comprometam a imunidade podem desenvolver sintomas mais graves, como falta de ar. Em casos extremos, o quadro pode evoluir para pneumonia, tuberculose e até meningite.
Isso não quer dizer que o vírus seja mais agressivo do que outros tipos de Influenza, ressalta o infectologista Esper Kallas. Todos podem levar a complicações. Só que, por ter sido identificado há pouco tempo, muita gente não tem resistência ao H1N1.
Para os que não estão no "grupo de risco", o conselho é vacinar-se, mas sem desespero. É possível esperar até o começo da campanha de vacinação, no dia 30 de abril, diz o infectologista.
Em São Paulo, a Secretaria Estadual de Saúde antecipou o início da vacinação para o começo desta semana. Na semana passada, hospitais e clínicas particulares da capital viram uma corrida frenética: salas de espera lotadas e uma força-tarefa para o atendimento.
"O que as pessoas não têm que ter é pânico. Os lotes estão se esvaindo e quem deixa de tomar é justamente quem mais precisa."
Até quem já teve H1N1 precisa se vacinar. Isso porque os anticorpos contra a gripe duram, em média, 12 meses. Depois disso, o nível de proteção cai e é possível pegar de novo. Não é como a catapora, cujos anticorpos costumam durar toda a vida, explica Gorinchtein.
Hoje, a rede pública oferece para as pessoas com mais chances de adoecer (gestantes, mulheres que acabaram de dar à luz, idosos e crianças de até 5 anos, entre outros), a vacina trivalente, que protege contra dois tipos de gripe A (entre eles o H1N1) e um tipo da B – segundo o Ministério da Saúde, essa é a composição recomendada pela OMS (Organização Mundial de Saúde).
Na rede particular, além da trivalente, já é possível encontrar a tetravalente, que adiciona a imunização a um segundo tipo B.
Vírus se aproveita de ambientes pouco ventilados para se multiplicar
Álcool gel e lavar as mãos
Há algumas teorias sobre o tempo de vida do vírus.
Segundo o NHS, serviço público de saúde do Reino Unido, os vírus contidos nas microscópicas gotículas que expelimos ao tossir ou espirrar alcançam cerca de um metro. Eles podem ficar suspensos no ar, onde podem viver por horas (principalmente em temperaturas baixas), e atingir superfícies e objetos. Em superfícies duras, o H1N1 sobreviveria por até 24 horas.
Logo, explica o órgão, qualquer um que tocar mesas, maçanetas ou mesmo dinheiro atingidos por essas gotículas pode se contaminar e espalhar o vírus ao tocar outras superfícies e pessoas.
Já de acordo com Gorinchtein, o vírus H1N1 vive normalmente menos de um minuto fora do corpo ao ser expelido junto com as gotículas de saliva ou secreções. Quando alguém espirra na barra do metrô é preciso que outra encoste ali logo e leve a mão, com vírus, à boca, olhos ou nariz para que se infecte, diz.
Independente de quem está certo, o álcool gel e a água com sabão são a melhor alternativa para reduzir as chances de contaminação. Apesar de não ser uma medida infalível – uma pessoa sempre pode tossir próximo a seu rosto –, ajuda bastante, pois mata os vírus que ficam nas mãos.
O infectologista Esper Kallas lembra a popularização do álcool gel no Brasil foi fruto da primeira epidemia de gripe suína, em 2009.
Tapar a boca ao tossir/espirrar
Quanto mais rápido os vírus expelidos chegaram às mucosas (boca, nariz e olhos) de uma pessoa, mais provável será a contaminação.
Por isso, proteja sua boca ao tossir ou espirrar. A infectologista Angela Rocha, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife, explica que, nos três primeiros dias da doença, quando o vírus está se multiplicando intensamente, a carga viral em cada espirro é maior.
Nesse período, é preciso atenção redobrada. Normalmente, o ciclo da gripe dura uma semana.
Segundo o serviço de saúde britânico, caso as mãos sejam usadas para tapar a tosse, espirro e limpar o nariz, é preciso lavá-las para evitar espalhar o vírus – a concentração na pele pode ficar alta por até cinco minutos.
O ideal, afirma o NHS, é usar lenços de papel para cobrir a boca e o nariz e jogá-los no lixo o mais rápido possível – o vírus pode sobreviver neles por cerca de 15 minutos, ou seja, nada de reaproveitar.
O QUE NÃO FUNCIONA:
Pronto-socorro
Começou a tossir? A garganta está arranhando? Não vá ao pronto-socorro. "O melhor lugar de se pegar a gripe é o pronto-socorro. Você fica seis horas na sala de espera. Acha que é alguma coisa, acaba não sendo nada. E dois dias depois está com gripe", explica o infectologista Esper Kallas.
Ele ressalta que ao ser infectado pelo H1N1 é preciso deixar a doença seguir seu curso natural e ir acompanhando os sintomas. Caso eles piorem, haja falta de ar ou secreções avermelhadas e com pus, é hora de procurar um médico.
"O problema não é pegar (a gripe), é saber lidar com ela. Se o filho pegou, vai construir imunidade. As pessoas precisam estar atentas na identificação dos casos mais graves."
Diferentemente dos especialistas, o Ministério da Saúde recomenda que a pessoa com suspeita da doença procure atendimento médico "imediatamente".
Eficácia de máscaras é bastante limitada, explica infectologista
Máscara
Comprou uma máscara na farmácia e acha que está protegido? Não é bem assim. O infectologista Esper Kallas estima que máscaras feitas de feltro e tecido têm vida útil de quinze minutos.
"Depois disso, elas já não têm mais eficácia. Ficam úmidas com a respiração e os poros do material vão abrindo. É como se não estivesse usando uma."
Segundo Kallas, as que funcionam tem "um sistema bem mais complexo" e são mais difíceis de encontrar, além de mais desconfortáveis.
Angela Rocha, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, diz que elas podem ser eficientes para contatos rápidos: "já ajuda".
Ficar só um dia em casa
O NHS, serviço público de saúde britânico, recomenda que a pessoa infectada fique longe do trabalho ou escola até se sentir melhor, o que deve ocorrer em cerca de uma semana.
Isso porque o período mais contagioso, geralmente iniciado quando os sintomas aparecem, pode durar até sete dias – crianças e pessoas com baixa imunidade podem precisar de uma folga ainda maior, já que nelas o vírus permanece ativo por mais tempo.
Ou seja: não dá para mascarar os sintomas com antitérmico e, por exemplo, mandar os filhos para a escola.
As dicas também valem para outros tipos de gripe.
Se entupir de remédios
Especialistas afirmam que, via de regra, a gripe causada pelo H1N1 vai embora depois de alguns dias, assim como as outras.
Por isso, recomenda o serviço britânico, o melhor é ficar em casa e beber bastante água para evitar a desidratação. Remédios para febre e dor podem ser usados para amenizar os sintomas.
Segundo o Ministério da Saúde, há a oferta, em todo o país, do medicamento oseltamivir (o Tamiflu), receitado de acordo com a avaliação médica.
A pasta afirma ser importante que o remédio seja administrado nas primeiras 48 horas dos sintomas.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

ESTUDO DESCOBRIU QUE PROXIMIDADE AOS LIXÕES ALTEROU PADRÕES MIGRATÓRIOS DE AVES


Estudo descobriu que proximidade aos lixões alterou padrões migratórios de aves


As cegonhas brancas de Portugal eram conhecidas por seus hábitos migratórios: todos os anos voavam para a África em busca de alimento e de temperaturas mais quentes. Nos últimos anos, porém, elas têm ficado em casa.
E isso preocupa, já que alterações desse tipo em comportamentos animais frequentemente têm impacto negativo. No entanto, as populações desses bichos só tem feito crescer: cientistas estimam que haja mais de 14 mil cegonhas brancas em Portugal durante o inverno, número dez vezes maior que nos anos 80.
O problema é que essa "fertilidade" coincide com o surgimento de aterros sanitários no país. Os lixões oferecem aos pássaros uma amplo e rápido suprimento de alimentos, o que inclui junk food (comidas que não muito saudáveis).
Para os pesquisadores, a questão era descobrir se o acesso fácil a esses alimentos estava mudando os hábitos migratórios, ou se era força do aquecimento global.
Plástico
Sendo assim, uma equipe de pesquisadores monitorou 48 cegonhas com uso de aparelhos de GPS. Mapearam seu posicionamento cinco vezes por dia, em especial quantas vezes visitavam os aterros e quão rápido voavam. As conclusões foram surpreendentes.
Alguns pássaros fizeram viagens de até 100km em busca de um "lanche"
Os lixões realmente estavam oferecendo às cegonhas um suprimento de comida para o ano todo. Isso influenciou o local onde elas faziam ninhos, mas sobretudo sua zona de atuação.
Os pássaros também estabeleceram mais colônias próximas aos aterros sanitários - os cientistas estimam que 80% das cegonhas passaram a maior parte do tempo perto do lixo, de acordo com o estudo que publicaram na revista científica especializada Movement Ecology.
Nos lixões, as aves comem de tudo. Inclusive o que não deveriam. "Sempre que um caminhão despeja o lixo, os pássaros pegam o que podem", conta Aldina Franco, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, coautora do estudo.
Entre o que pegam estão pedaços de plástico e mesmo partes de computadores. "Mas o que querem mesmo são restos de comida, como sobras de carne e peixe", completa Franco.
Aves foram rastreadas com ajuda de aparelhos GPS
Só que essa farra está com os dias contados. Novas leis da União Europeia exigem que lixo alimentar brevemente tenha de ser reciclado, mas também exigirão que lixões passem a ser cobertos. Isso dificultará o acesso de animais. As cegonhas têm um futuro incerto: voltarão a emigrar para África em busca de comida, como vinham fazendo por centenas de anos, ou continuarão onde estão?
"As colônias mais próximas aos lixões possivelmente passarão por escassez de alimento", observa Franco.
Dieta dos bichos também mudou
Essas aves ou voltarão aos hábitos de outrora ou vão morrer de fome. A mudança para uma vida mais "sedentária" ocorreu em apenas 30 anos, então os cientistas esperam que a tendência seja revertida também com essa rapidez, e que os pássaros comecem a se comportar como faziam antes de se viciarem em fast food.
"Mas não sabemos o que vai acontecer, se indivíduos podem mudar sua estratégia de um ano para o outro. Será muito importante vermos como as cegonhas portuguesas vão se comportar quando os lixões fecharem. Continuaremos a monitorá-las", diz a cientista.