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segunda-feira, 16 de maio de 2016

EM VULCÃO, CIENTISTAS TENTAM DESVENDAR ORIGEM DE RAIOS MISTERIOSOS


O HAWC fica em um dos pontos mais altos do México, a 4,1 mil metros de altitude

No vulcão Sierra Negra, no México, 300 tanques de água têm uma missão: "caçar" os chamados "mensageiros do espaço", para descobrir seu ponto de origem.
Mensageiros do espaço são, na verdade, raios cósmicos, descobertos em 1912 pelo físico austríaco Victor Hess. Receberam esse apelido porque levam informações das partes distantes do espaço a bilhões de anos-luz. E, desde o descobrimento desses raios, ninguém conseguiu determinar de onde eles vieram.
Os tanques fazem parte do Observatório de Raios-Gama HAWC que está funcionando há pouco mais de um ano na elevação mais alta do México. Cada um com 7,3 metros de diâmetro e 4,5 metros de altura, os tanques estão em uma área de 20 mil metros quadrados a uma altitude de 4,1 mil metros.
"Os raios cósmicos têm um papel muito importante na quantidade de energia que existe em nossa galáxia. Nos dão informações sobre como as estrelas maiores morrem", disse o professor-associado Ignacio Taboada, do Instituto de Tecnologia da Georgia, nos Estados Unidos, e coordenador científico do projeto.
Estudar estes raios para descobrir sua trajetória, massa, energia e, acima de tudo, sua origem, vai ajudar os astrônomos a entender melhor o Universo, sua estrutura, composição e processos.
Os raios cósmicos são partículas subatômicas que chegam de todas as partes e têm uma radiação muito alta. E é muito difícil estudá-los justamente porque eles chegam de todas as partes: é complicado traçar sua trajetória.
A atmosfera da Terra nos protege desses raios e os torna praticamente inofensivos. Mas aprender a nos proteger deles é fundamental para uma futura viagem tripulada à Marte, por exemplo.
"É importante entendê-los porque são eles que limitam a quantidade de tempo que (os humanos) podem passar no espaço", disse Taboada.
Aliado
A ciência conta com aliados no espaço: os raios-gama, que também são subpartículas de luz com 1 bilhão de vezes mais energia que a da luz visível.
"Há teorias que indicam que, se uma fonte produz raios cósmicos, também deve produzir raios-gama simultaneamente", explicou Taboada. Sendo assim, afirmou, buscar a fonte de raios-gama, a princípio, possibilita a busca da fonte dos raios cósmicos.
E é aí que entram em ação as centenas de tanques com quase 190 mil litros de água em cada um: eles funcionam como uma câmera que detecta as partículas quando estas passam através deles.
"Quando se tem uma partícula de elétron em um tanque de água, ela viaja muito rápido, quase na velocidade da luz", afirmou Taboada.
Esse processo é captado pelos sensores óticos presentes nos tanques. E quanto mais alto estes dispositivos estiverem instalados, maior a quantidade de partículas de raios-gama que podem ser captadas.
Os raios cósmicos se chocam contra a atmosfera terrestre e suas partículas viajam na velocidade da luz
O Parque Nacional Pico Orizaba, onde ficam o vulcão e os tanques, não apenas tem as condições geográficas ideais, mas também as melhores condições econômicas.
"O México é um país com muitas montanhas de grande altitude com acesso relativamente fácil. Poderíamos ter ido para o Chile, onde há terrenos mais elevados, mas o custo de produção também teria sido maior", disse o cientista venezuelano.
Foram necessários quatro anos de construção até o laboratório iniciar seu funcionamento, em abril de 2015.
Desde então ele já detectou 40 fontes de raios-gama, nove delas nunca vistas antes. "Ao passar através dos tanques do HAWC, estas partículas produzem um pouco de luz que nos permite fazer uma fotografia desta cascata atmosférica de partículas que vai chegando ao solo."
Quando esta cascata atmosférica passa pelo detector, alguns dos tanques de água verão a luz antes que outros, o que permite saber qual a sua direção.
"O crucial em astronomia é poder dizer: 'Lá em cima existe algo, (indo) nesta direção'. Se não pudermos detectar a direção, não há astronomia", afirmou Taboada.
Energia
Maioria das partículas detectadas no México tem a mesma energia que as produzidas pelo Grande Colisor de Hádrons
O HAWC pode detectar os raios cósmicos exatamente da mesma forma.
Estes detectores estão traçando um mapa de alta energia para determinar a fonte dos raios cósmicos.
Para se ter uma ideia da quantidade de energia envolvida, o site Techinsinder explica que a maioria das partículas detectadas pelo HAWC tem a mesma energia que as produzidas pelo Grande Colisor de Hádrons, acelerador de partículas gigantesco que fica na fronteira entre a França e a Suíça.
"Mas algumas delas podem ser até sete vezes mais energéticas e poderosas do que qualquer coisa que tenha sido criada na Terra", afirmou Taboada.
Quanto mais tempo esse detector estiver funcionando, maior será a energia que ele vai capturar.
E isso é o que torna o centro HAWC um lugar único: diferente de outros detectores de raios-gama, que só funcionam na escuridão ou durante a lua nova, esse observatório funciona 24 horas por dia e todos os dias, o que permite que ele espie todo o céu ao seu alcance.

domingo, 15 de maio de 2016

O VENENO DE RÃ QUE É USADO COMO REMÉDIO NA AMAZÔNIA



Veneno contido nesta rã está se tornando famoso internacionalmente
"Eu chorei sem parar durante dois anos. Quando apliquei o remédio, meu choro parou. Assim, categoricamente."
Daniel Valdés não tem dúvidas sobre o efeito que o veneno da rã amazônica kambô teve sobre ele na primeira vez que o tomou.
O uso desse veneno – proibido pelas autoridades brasileiras – no tratamento de várias doenças está se propagando internacionalmente, principalmente na América do Sul.
Entretanto, cientistas advertem que nenhum dos benefícios que foram atribuídos à substância foi comprovado e que, em alguns casos, seu uso pode levar à morte.
Os alertas não impediram que Valdés e muitos outros de fazerem o tratamento.
Ele tinha dúvidas, mas depois de dois anos de pesquisas sobre o assunto, e sofrendo de depressão após um divórcio, decidiu tentar.
"Apliquei (o remédio) e minha história mudou", disse o chileno à BBC. Ele repetiu a dose outras vinte vezes.
Uso está se expandindo pela América do Sul
“Ação em três frentes”
Valdés disse que a chave de sua transformação foi uma substância altamente tóxica secretada pela Phyllomedusa bicolor, também conhecida como rã-kambô, para se defender de seus predadores.
O animal de cor verde brilhante vive principalmente na selva do Estado do Acre, no noroeste do Brasil, mas também pode ser encontrado em outros países amazônicos, como Bolívia, Colômbia, Guiana, Peru e Venezuela.
Tradicionalmente, grupos indígenas brasileiros como os katukinas, kaxinawás e yawanawás, entre outros, usam o kambô em rituais para reforçar o sistema imunológico.
Para isso, caçam a rã, que é identificada a partir do seu coaxar característico. Depois, amarrando as quatro extremidades do animal, extraem o veneno coçando suas costas com uma espátula.
Recentemente, esses rituais vêm sendo realizados por habitantes de grandes cidades, pessoas que não têm qualquer ligação com as culturas indígenas.
Indígenas caçam a rã e a "raspam" para retirar o veneno
Na internet, curandeiros oferecem seus serviços em Chile, Colômbia, Peru e até Espanha, cobrando até US$ 50 (R$ 175) por sessão.
O chileno Carlos Fuentes é um deles. Ele aprendeu a técnica com os índios katukinas, que habitam o Vale do Juruá. Fuentes disse que conviveu com a etnia durante quatro anos. Hoje, oferece sessões no Chile sob o nome de xamã Vuru.
"O kambô é um tipo de medicamento, não um remédio", disse à BBC.
"Ele atua em três frentes – física, mental e espiritual. E no alinhamento do ser para sua cura completa", disse.
Para que o kambô surta efeito, explicou, o paciente deve comparecer à sessão em jejum. Depois, ele toma três litros de água enquanto o curandeiro faz uma série de queimaduras superficiais, em formato de pontos, em sua pele.
"Na batata da perna, no caso das mulheres. E nos braços e peito, no caso dos homens”, explicou Fuentes.
Sobre esses pequenos ferimentos, o curandeiro aplicará a substância extraída da rã. Misturada com água e colocada para secar sobre uma tábua de madeira, o veneno tem agora consistência pastosa e cor branca.

Carlos Fuentes (à esq.) oferece tratamento com kambô no Chile
“Fogo”
"Uns três ou quatro minutos depois, você sente um fogo correndo por seu corpo, uma chama que parte dos dedos dos pés e chega até a sua cabeça", contou Valdés. "Você sente o coração na garganta, fica congelado, transpira."
A dose – o número de pontos – e a periodicidade da aplicação dependem da idade e constituição da pessoa, assim como do número de vezes que ela utilizou a substância, explicam os curandeiros.
O número de pontos, por sua vez, depende do sexo, da idade e da constituição física do paciente.
"É como uma luta interna", disse Mauricio González, outro chileno que experimentou o kambô há três anos e, desde então, aplica a substância sempre que se sente "estressado e com energia baixa".
A reação dura 15 minutos.
"É uma reação física ao veneno de um sapo. Você fica envenenado por um tempinho", disse Valdés.
Número de pontos de aplicação depende de sexo, idade e complexidade do caso
Ao final dos 15 minutos, o "paciente" vomita e sente uma sensação de alívio. Cientistas dizem que essas reações são consequência do envenenamento. Já os adeptos da prática dizem que isso acontece porque a substância está eliminando toxinas e outros males do organismo.
"A melhora é imediata", disse Fuentes, o xamã Vurú. Ele contou que atende pessoas com todo tipo de problemas, desde viciados a pacientes com depressão e fibromialgia (síndrome que causa dores musculares e fadiga).
Outros profissionais que se dizem versados nas artes do kambô oferecem o tratamento contra inflamações, cansaço, tendinite, dor de cabeça, asma, rinite, alergias de todo tipo, úlceras, diabetes, problemas de pressão, colesterol alto, estresse, crises de ansiedade e redução da libido.
A internet está cheia de depoimentos de pessoas que dizem ter se curado de todos esses problemas após fazer o tratamento.
E Valdés, falando à BBC, disse que além de curar sua tristeza, o veneno de rã controlou sua hipertensão.
Veneno seca em um pedaço de bambu antes de ser aplicado
Sem comprovação científica
Cientistas advertem, no entanto, que nenhuma das propriedades "milagrosas" atribuídas à substância foi cientificamente provada.
Segundo o biomédico Leonardo de Azevedo, do Instituto Oswaldo Cruz, em São Paulo, o veneno contém substâncias opióides – como as deltorfinas e as dermorfinas – que aliviam a dor e produzem uma sensação de bem-estar.
Portanto, o que os usuários estão vivenciando é uma reação biológica momentânea às substâncias químicas presentes no veneno, disse Azevedo à BBC.
O especialista em venenos disse que outras moléculas presentes na substância – como as dermaseptinas, as dermatoxinas, as phylloseptinas e as plasticinas – têm demonstrado, em laboratório, propriedades antimicrobianas, destruindo bactérias, protozoários, fungos e lombrigas.
Por isso, o veneno da kambô é citado em vários estudos que apontam seu potencial futuro no combate às superbactérias (bactérias resistentes a antibióticos).
Para especialista, aplicação "não é segura"; indígenas também alertam para uso indevido
Mas tratam-se de estudos feitos em laboratório, ressaltou Azevedo. "É preciso muita pesquisa para avaliar se (a substância) também é eficiente lá fora", disse.
"É sabido que a maioria das moléculas que apresentam resultados promissores in vitro falha quando é analisada ao vivo."
E Azevedo vai mais longe: "Na minha opinião, a aplicação do kambô não é uma prática segura".
"A Phyllomedusa bicolor jovem é parecida com a Phyllomedusa adulta, que tem secreções cutâneas tóxicas", explicou.
O especialista disse que xamãs menos experientes podem usar o veneno errado levando os usuários a sofrer efeitos secundários perigosos.
"Além disso, a má conservação pode favorecer o crescimento de micro-organismos resistentes no pedaço de bambu onde se coloca o veneno", acrescentou.
Outros especialistas, como Carlos Jared, diretor do Laboratório de Biologia Celular do Instituto Butantan, em São Paulo – afiliado ao Ministério da Saúde, são da mesma opinião.
Fuentes, por sua vez, diz que não há contraindicação

Proibido
A venda do veneno no Brasil, assim como qualquer publicidade sobre o assunto, foram proibidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
"Esta substância nunca foi submetida a análises químicas, algo essencial para eu se comprove sua eficácia e segurança", disse à BBC uma porta-voz da agência.
Há dez anos, os próprios índios amazônicos que usam a substância alertaram para os perigos do uso indevido e não autorizado, feito por xamãs inexperientes, do veneno.
"Estamos ouvindo falar muito que no sul do Brasil tem gente que usa (o veneno) sem nenhum respeito, tentando lucrar com a venda do leite da rã pela internet e aplicando-o sem nenhum preparo e sem a permissão dos povos indígenas, com risco, inclusive, de morte", disse Joaquim Luz, um líder yamanawá do Acre, em uma entrevista à Rádio Nacional da Amazônia em 2006.
Até o momento, houve dois relatos de mortes de usuários do veneno. No entanto, não há provas de que as mortes tenham ocorrido em decorrência do uso da substância.