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terça-feira, 24 de maio de 2016

AS CORES QUE APENAS ALGUMAS MULHERES CONSEGUEM ENXERGAR


Algumas mulheres nascem com olhos hipersensíveis, que podem ver o mundo de um modo que a maioria de nós nem imagina.

Há alguns anos, a artista Concetta Antico descobriu ter uma mutação genética que a dotou de uma percepção surpreendentemente sensível das cores - ela vê um espectro de tons distintos onde vemos apenas uma cor.
Como ela disse à BBC Future em 2014, mesmo a pedrinha mais comum na estrada para ela brilha como um caleidoscópio.
"A pedrinha saltava em mim com laranjas, amarelos, verdes, azuis e rosas", diz ela. "Fiquei pouco chocada quando percebi o que outras pessoas não veem."
Uma folha verde aparentemente simples pode estourar em tons fortes de vermelho, enquanto um monte de tomates se torna uma paleta multicolorida de tons - Antico afirma que ela pode escolher o fruto mais maduro de relance, graças a diferenças sutis de sombra que seriam invisíveis para a maioria das pessoas.
"As cores intensas estão falando comigo o tempo todo," diz.
Do mesmo jeito que um daltônico não pode imaginar a variedade de vermelhos e verdes que a maioria pode ver, a maior parte das pessoas pode não ser capaz de conceber o arco-íris que ela descreve.
Em 2014, a pesquisa científica sobre as habilidades de Antico haviam apenas começado, mas hoje estão a todo vapor - e um novo artigo traz dados de impacto sobre o mundo da artista.
As cores detalhadas no trabalho de Concetta Antico podem ajudar a imaginar como ela vê o mundo.
Sabe-se há tempos que pessoas com visão extraordinária como Antico deveriam existir na teoria, graças a uma rara diferença na maneira como os olhos são formados.
Imagine a retina como um mosaico, composto por diferentes tipos de células fotossensíveis conhecidas como cones. A maioria das pessoas possui três tipos de cones conectados a diferentes grupos de comprimentros de onda (o que nos faz 'tricromáticos').
A luz de cada parte da cena ativa essas células em distintos graus, e a exata combinação de sinais determina a cor que percebemos.
Algumas mulheres, contudo, são "tetracromáticas". Graças a duas mutações diferentes em cada um dos cromossomos X, elas possuem quatro cones - aumentando a combinação de cores que são capazes de ver.
A mutação não é muito rara (estimativas de prevalência variam, mas podem ser de ate 47% entre mulheres de descendência europeia), porém cientistas lutaram para encontrar alguém que tivesse, de fato, a percepção aumentada.
Antico foi selecionada após testes que mostraram que sua visão era diferente. Estudos comprovaram que a tetracromia da artista proporciona visão melhorada em locais de baixa iluminação - o que permitia, por exemplo, visões incríveis do entardecer.
Depois de a BBC Future divulgar a história, ela ficou famosa como a "mulher com visão de arco-íris".
Mas mesmo se você tiver as versões exatas dos genes relacionados à percepção de cor, será preciso treinamento para desenvolver esse potencial genético.
Mesmo se você tiver os genes certos envolvidos na percepção ampliada das cores, treinar parece ser fundamental para aproveitar seu potencial.
Ainda assim, muitas perguntas ficaram em aberto. Como muitas mulheres podem portar a mutação e poucas pessoas terem essa visão especial?
"Uma possibilidade é que você tenha que ter um treinamento precoce para estimular essa capacidade", afirma Kimberly Jameson, da Universidade da Califórnia, em Irvine, que fez inúmeros testes com Antico.
Antico é uma artista que prestou atenção em variações sutis de cor durante quase toda sua vida. "Eu era bem maníaca. Sempre quis representar tudo o que podia ver", afirma.
Talvez esse tipo de intensa experiência tenha sido crucial para reprogramar o cérebro para receber os sinais extras que seus olhos estavam recebendo.
Para passar isso a limpo, Jameson fez uma parceria com Alissa Winkler, da Universidade de Nevada, para comparar a visão de Antico com um leque de outros participantes, incluindo outra tetracromática que não é artista e um artista com visão normal.
O experimento testou a sensibilidade dos participantes a diferentes níveis de luminosidade a certos comprimentos de onda de luz. Em outras palavras, com o cone extra nos olhos de Antico, ela deveria captar mais luz e ver diferenças sutis no brilho de certas sombras.
Resultados
De fato, Antico provou ser mais sensível do que uma pessoa normal, sobretudo no caso de tons avermelhados - um achado que confirmou as previsões feitas a partir de seu teste genético.
Como Jameson suspeitava, Antico também se saiu bem melhor do que a outra tetracromática que não era artista - dando peso à ideia de que seu treinamento em cores tenha sido fundamental ao desenvolvimento de suas habilidades.

Os experimentos de Jameson permitiram simular visão de Antico. Os pontos pretos revelam as áreas afetadas pelo "cone" extra da artista

Usando esses resultados, Jameson reconstruiu algumas fotos para mostrar um pouco melhor como o mundo parece para Antico. Embora seja impossível recriar exatamente as cenas que ela vê, as fotos destacam as áreas que seriam mais sensíveis para a artista.
Na cena de montanha acima, por exemplo, as faixas em destaque mostram os pontos mais afetados pela tetracromia. Quando pergunto como ela vê a cena, ela diz que os morros são de um rosa alaranjado, e que há muito violeta no mato. As moitas, diz ela, são "laranja claro, amarelo e verde oliva".
Portas da percepção
"Agora tenho toda uma nova percepção de tudo o que as outras pessoas não estão vendo", ela diz. "É chocante para mim. Até quando descobri que tinha tetracromia, não sabia a dimensão das diferenças entre o que vejo e o que pessoas normais estão vendo."
Jameson agora começou a estudar outros artistas tetracromáticos (incluindo a irmã de Antico) - e a expectativa é entender como essa habilidade se reflete no estímulo artístico.
Até agora, parece que as pinturas de Antico trazem os mesmos tipos de detalhes que poderiam ser previstos pelas simulações das pesquisadoras Jameson e Winkler.
Antico, por sua vez, espera usar as simulações de Jameson como um guia em suas aulas de arte. Ao encorajar pessoas a focar nas áreas mais vibrantes para ela, a artista espera que esses alunos possam treinar os olhos para serem mais sensíveis.
E ela diz já ver resultados. "Ontem estava caminhando com meus alunos e um deles disse 'Olhe aquela violeta na moita - nunca teria visto isso sem você'.
Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

MEL, LÚPULO E OUTROS REMÉDIOS NATURAIS QUE COMBATEM BACTÉRIAS


Mel, lúpulo e chá podem ser usados como remédios naturais contra bactérias

O chá, a cerveja, o mel e as esponjas marinhas têm muito mais em comum do que pode parecer. Todos eles são produtos naturais que, segundo cientistas da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, têm capacidade de atacar bactérias que nos causam infecções.
O uso desses itens com esse propósito não é novo. Mas na medida em que os microorganismos aumentam a "resistência" aos antibióticos, muitos especialistas dizem ser necessário buscar formas alternativas para combatê-los.
"Grande parte do que fazemos é baseado na ciência e na nova tecnologia, mas há muito o que aprender com a história", afirma à BBC o professor Les Baillie, da Faculdade de Farmácia e Ciências Farmacêuticas da Universidade de Cardiff.
Mas então como os remédios naturais podem nos ajudar a combater as infecções e qual é o uso deles hoje em dia?
1- Mel, antibiótico natural
Poucos remédios naturais têm um uso tradicional tão longevo como o mel.
"O mel foi foi utilizado durante milhares de anos para tratar feridas e, de fato, já é usado em hospitais para tratar pacientes com infecções quando antibióticos não são o suficiente", explica Les Baillie.
Depois de provar centenas de mostras enviadas por apicultores de toda a região em Cardiff, a equipe descobriu um tipo de mel em uma cidade galesa chamada Twywyn com a mesma potência antibacteriana do que o famoso mel Manuka da Nova Zelândia.
O mel é utilizado como antibiótico há milhares de anos
De acordo com Les Baillie, a pesquisa do mel em climas mais exóticos, como na Floresta Amazônica, poderia permitir um novo enfoque na busca por "plantas exóticas que permitam curar doenças".
2- O lúpulo da cerveja
Foi esse espírito investigador que levou o cientista James Blaxland a visitar cervejarias locais em busca de agentes antibacterianos.
Blaxland pesquisa como o lúpulo, um dos ingredientes principais da cerveja, pode ser utilizado para combater patógenos.
"O lúpulo é utilizado há centenas de anos como aditivo aromatizante da cerveja", diz Blaxland à BBC.
"No início do século XVIII, esses lúpulos que eram adicionados à cerveja evitavam que ela azedasse, por isso as pessoas começaram a pensar que talvez eles poderiam ter efeitos antibacterianos", completa.
O lúpulo da cerveja também pode ter propriedades antibacterianas
"Temos avançado nos últimos cinco anos e analisamos mais de 50 mostras diferentes em todo o mundo."
Blaxland está buscando componentes derivados possam ser efetivos na luta contra infecções fortes, como a causada pelo estafilococo, que é resistente à meticilina, ou soluções para o "grande problema" da tuberculose bovina.
3- Um chá que mata bactérias
Uma bebida muito popular principalmente entre os britânicos também possui propriedades antibacterianas: o chá.
"É até surpreendente a quantidade de gente que sabe que o chá contém compostos chamados polifenóis, que matam bactérias", explica Les Baillie.
Em colaboração com a Universidade de Aberystwyth, os pesquisadores de Cardiff trabalharam no desenvolvimento de um chá para tratar a Clostridium Difficile (o C. Difficile), um tipo de bactéria que vive nos intestinos de muitas pessoas e que, quando cresce de forma descontrolada, pode provocar infecções.
De acordo com Les Baillie, essa bactéria é suscetível a certos polifenóis que se encontram no chá.
Alguns componentes do chá estão sendo usados para combater bactéria intestinal
"Levando em conta de que se trata de uma doença intestinal e que, quando bebemos chá, ele vai para o intestino, chama a nossa atenção a possibilidade de termos um 'super chá' que seja suficientemente alto em polifenóis para conseguir matar a C. Difficile", diz o cientista.
Na busca por esse "super chá", os pesquisadores analisaram mostras de 37 plantas em todo o mundo, com a colaboração com uma empresa de chá.
"Podemos dizer que até agora o chá verde do leste do Quênia foi o mais efetivo", explica Les Baillie.
4 – Esponjas marinhas
Outra possibilidade encontrada pelos cientistas foram as esponjas marinhas encontradas na costa galesa de Swansea, que também podem combater as bactérias.
As esponjas marinhas já foram utilizadas como produtos farmacêuticos há alguns anos.
Na década de 1950, uma espécie encontrada no Caribe foi usada como base para o medicamento contra o câncer, Cytarabine.
Alex White disse que as esponjas marinhas já foram usadas como fontes de medicamentos
"Esses organismos de zonas temperadas se adaptam facilmente a condições mais difíceis. Isso significa que algumas moléculas podem obter certa vantagem competitiva", diz Alex White, da Universidade de Cardiff.
E assim foi como as esponjas se converteram em especialistas na criação de "potentes moléculas", que são efetivas para matar células.
"Estamos no início de nossa pesquisa, mas fomos capazes de encontrar várias moléculas anti-bacterianos e testá-las contra os agentes existentes", afirma White.
Mas uma pesquisa mais aprofundada é necessária para verificar a eficácia destes produtos naturais, defende Les Baillie.
"Ainda que algumas receitas antigas não passem de placebos, é provável que, nesse caso, nossos antepassados tenham descoberto algo que realmente funciona."