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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

O PRECONCEITO CONTRA DOENÇAS CUJA CAUSA É EMOCIONAL E NÃO FÍSICA: “ESTÁ TUDO NA SUA CABEÇA”



A neurologista irlandesa Suzanne O'Sullivan conheceu Yvonne assim que se formou em medicina. A paciente estava cega, e não havia uma causa física para o problema - era uma manifestação do estresse emocional.
Neurologista Suzanne O'Sullivan se interessou pelas doenças psicossomáticas quando verificou que não havia uma causa física para os sintomas de vários dos seus pacientes. Direito de imagem Suzanne O'Sullivan
Mas o que faz com que nosso corpo manifeste os sintomas de uma doença que não temos?
E mais: por que mascaramos com dor, fraqueza ou paralisia o que na verdade é emoção?
Yvonne, de 40 anos, tinha entrado no hospital no dia anterior, depois que um colega de trabalho acertara um produto de limpeza nos seus olhos.
Sucessivas lavagens não aliviaram a dor e a irritação dos olhos, nem lhe devolveram a visão.
Os exames de Yvonne nos seis meses seguintes, no entanto, tiveram o mesmo resultado: a cegueira não tinha nenhuma causa física.
Os médicos concluíram então que a deficiência visual dela era de origem psicossomática. Ou seja: era a manifestação física de estresse emocional.
A neurologista escreveu um livro premiado em que relata sete casos que tratou no seu consultório.  
Direito de imagem Thinkstock
Livro premiado
Yvonne foi uma das primeiras de uma longa relação de pacientes com problemas psicossomáticos que a O'Sullivan viu em 20 anos de carreira.
A história dela e a de outros seis pacientes estão no livro It's All in Your Head: True Stories of Imaginary Illness ("Está tudo na sua cabeça: Histórias reais de doenças imaginárias", em tradução livre), escrito pela médica em 2015.
A obra ganhou no ano passado o prestigiado prêmio literário britânico Wellcome Book Prize.
As doenças psicossomáticas são imaginárias, mas os seus sintomas são reais. 
Direito de imagem Thinkstock
A neurologista falou sobre o livro na 11ª edição do Hay Festival, um dos eventos literários anuais mais importantes do mundo hispânico, que acontece até o próximo dia 29 na cidade de Cartagena, na Colômbia.
Os outros pacientes, que chegaram ao seu consultório frustrados após procurarem diversos especialistas que não conseguiram chegar a um diagnóstico, apresentavam sintomas tão graves quanto os de Yvonne: alguns estavam em cadeiras de rodas, outros tinham inflamações, se queixavam de dores, paralisia, desmaios e convulsões.
Doenças que todo mundo pode ter
Esses pacientes tinham algo em comum: a falta de uma explicação médica para seus sintomas. E a grande maioria se negava a aceitar que a doença era de origem psicológica.
Mas não foi por acaso que eles procuraram a O'Sullivan.
É uma situação que se repete em quase todos os consultórios, disse a especialista à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Dedico grande parte do meu tempo a pacientes com convulsões e, em geral, um terço das pessoas que atendo sofre de convulsões de origem psicológica. Mas, de acordo com estudos, em outras especialidades médicas um terço dos pacientes também apresenta sintomas de ordem psicológica", disse O'Sullivan.
Estas doenças não são um mal típico da sociedade contemporânea - embora a internet ajude com a grande quantidade de informação disponível sobre enfermidades e seus sintomas - nem fazem distinção entre ricos e pobres.
"Isso acontece em todo o mundo", afirma a neurologista.
Ela lembrou que um estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), feito há alguns anos, demonstrou que a incidência de doenças cujos "sintomas carecem de explicação médica" é praticamente idêntica em quase todos os países, independentemente de serem desenvolvidos ou em desenvolvimento e do acesso da população aos serviços de saúde.
Sintomas reais
Foi exatamente essa proporção alarmante que fez a neurologista se interessar pelo assunto e, mais tarde, contar sua experiência no livro.
A obra é um relato humano e cheio de compaixão das histórias de alguns dos seus pacientes e das dificuldades da neurologista de trabalhar nessa área da medicina, estigmatizada pela sociedade.
'Todos lidamos com o estresse de formas diferentes', diz O'Sullivan.
 Direito de imagem Jonathan Greet
"Nosso corpo produz o tempo todo sintomas físicos em resposta a emoções. Muita gente fica com as mãos trêmulas ao fazer uma apresentação em público, outras pessoas sentem o coração disparar se estão ansiosas e há ainda as que ficam coradas quando sentem vergonha", diz O'Sullivan.
"É algo que acontece com todos nós. Mas eu não poderia dizer por que em alguns indivíduos esse mecanismo decide criar uma patologia. O que ocorre é que todos lidamos com o estresse de formas diferentes", continua.
Também não conseguimos escapar de tais sintomas da mesma forma que evitamos uma gripe (usando mais agasalhos no frio) ou uma lesão muscular (aquecendo o corpo antes de correr).
"Não podemos evitar os sintomas físicos diante de uma situação de estresse", explica a médica.
"O que podemos fazer é evitar que eles se transformem em algo incapacitante. Você pode reconhecer os sintomas e alterar a resposta do seu organismo."
Embora não exista uma causa física, não se deve duvidar que os sintomas são reais para o paciente e que a consequência deles pode ser uma incapacidade devastadora.
“Você não tem nada”
E é justamente a falta de uma origem física que historicamente fez a medicina subestimar esse tipo de distúrbio.
O'Sullivan admite que a medicina tem subestimado os problemas psicossomáticos. 
Direito de imagem Thinkstock
Isso também pode ser visto na linguagem dos médicos ao falar sobre os males psicossomáticos.
"Se uma pessoa tem um problema, mas os seus exames são normais, costumamos dizer que ela não tem nada", afirma O'Sullivan.
"Nós, médicos, somos treinados para nos concentrarmos nas doenças, para encontrá-las. Quando examinamos um paciente, estamos preocupados em não deixá-las escapar. Se atendo alguém e não percebo que a pessoa tem uma doença, isso vai gerar muitas recriminações", acrescenta.
A atenção dos médicos está tão concentrada nas doenças que, quando elas são descartadas, seu trabalho é dado por encerrado.
E foi a falta de atenção e importância dada a esses males que contribuiu para criar um estigma em torno das doenças psicossomáticas.
Por isso, é muito difícil para o paciente aceitar o diagnóstico, que geralmente é recebido como se fosse um insulto.
Um diagnóstico que ninguém quer ouvir
Mas até que ponto essa não é uma saída fácil para rotular qualquer doença para a qual a medicina ainda não tem uma resposta?
Esse é o temor mais comum dos pacientes, segundo O'Sullivan.
A médica conta ter recebido no seu consultório pacientes que chegaram a ficar paralisados por causa de problemas psicossomático. Direito de imagem Thinkstock
"No entanto, o diagnóstico é extremamente preciso. Em neurologia é muito fácil fazer medições do sistema nervoso. Há uma grande diferença entre alguém com uma paralisia ou uma convulsão psicossomática e alguém com uma doença no cérebro", explica.
"Isso permite que o médico faça um diagnóstico confiável."
Mas quando há a suspeita de que uma doença possa ser psicossomática, o processo é outro: "A doença vai se revelando, trazendo evidências objetivas com o passar do tempo".
Por outro lado, estudos a longo prazo demostraram que o percentual de diagnósticos equivocados é de apenas 4%.
Terapia nem sempre resolve
A maior parte dos pacientes que aparece no livro de O'Sullivan foi encaminhada ao seu consultório por um psiquiatra.
No entanto, a neurologista explica que o tratamento psiquiátrico ou psicológico não é necessariamente indicado em todos os casos de doenças psicossomáticas.
Nem todo distúrbio psicossomático deve ser encaminhado para psicólogos ou psiquiatras, segundo a neurologista. Direito de imagem Thinkstock
"O tratamento depende de cada indivíduo e das causas dos sintomas. Em algumas pessoas, os sintomas surgem depois de um trauma psicológico. Neste caso, a indicação é de terapia psicológica ou psiquiátrica", explica.
"Mas, para outros pacientes, os sintomas não estão relacionados a um trauma específico. Podem estar ligados à maneira como encaram uma lesão ou uma doença", acrescenta.
"Assim, essas pessoas não precisam de ajuda psicológica profunda, mas de uma terapia física que as ajudem a treinar seu corpo para retornar à vida normal ou de terapia cognitiva-comportamental para superar o medo que sentem de voltar a viver sem a doença."
Construindo uma ponte
Embora o tratamento das doenças psicossomáticas fuja do campo da neurologia, O'Sullivan não pretende se dedicar à psiquiatria.
"O problema é que esses pacientes não vão a um psiquiatra, porque seus sintomas são físicos. Eles procuram o clínico", diz a neurologista.
"Por isso, precisamos de médicos que façam uma ponte entre a neurologia e a psiquiatria. Precisamos de neurologistas que estejam interessados neste problema, já que é a eles que os pacientes procuram."
Neste sentido, ela afirma que nos últimos cinco anos houve um crescimento do interesse entre os neurologistas, o que pode trazer avanços para o conhecimento na área, criar uma aceitação maior do problema e assim, aos poucos, poderá diminuir o estigma.
A história de Yvonne - a paciente com cegueira emocional que despertou o interesse de O'Sullivan pelas doenças psicossomáticas - teve um final feliz.
Depois de seis meses de tratamento psiquiátrico e terapia familiar, ela finalmente voltou a enxergar.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

MILITAR BRITÂNICA MORRE APÓS TRATAMENTO POLÊMICO CONTRA CÂNCER COM BICARBONATO DE SÓDIO



Em maio de 2009, Naima Houder-Mohammed tornou-se capitã do Exército britânico. No ano seguinte, ela foi diagnosticada com câncer de mama, se tratou e foi considerada curada.
Mas, em 2012, enquanto treinava com a equipe militar de esqui, foi detectado que seu câncer havia retornado. Sua situação era tão séria que foi oferecido a ela um tratamento paliativo até sua morte.
"Ela se recusou a aceitar que era seu fim", recorda seu amigo e ex-companheiro de profissão, Afzal Amin.
"Naima era uma batalhadora. Ela lutou para entrar na academia militar e para se formar. Ela lutou por tudo em sua vida. Essa era apenas mais uma batalha em sua longa lista de vitórias."
Como suas opções médicas eram limitadas, Naima fez o que muitos fazem: recorreu à internet em uma busca de uma solução.
Isso a levou até Robert O. Young, autor de livros sobre Medicina alternativa que vendia uma mensagem de esperança para pacientes com câncer pela rede.
Naima começou a se corresponder por e-mail com ele, em uma história que revela o quanto a pseudociência pode ser usada para manipular quem se encontra em um estado vulnerável.
A capitã britânica Naima recorreu à internet em busca de um tratamento para câncer de mama. Direito de imagem David Poole
Young é autor de uma série de livros entitulada O Milagre do pH, que teve mais de 4 milhões de cópias vendidas ao redor do mundo. Seus textos explicam sua "abordagem alcalina" quanto à alimentação e à saúde, que já influenciou muitas pessoas.
Em um e-mail de Naima para Young em julho de 2012, ele diz a ela que "há uma maior necessidade de se concentrar em um regime diário focado em...espalhar alcalinidade pelo sangue."
"Sugiro que seu tratamento seja de ao menos 8 a 12 semanas. Não será fácil, mas você estará em um ambiente supervisionado em que receberá todos os cuidados necessários."
Naima foi em busca do dinheiro que precisaria para isso - em um e-mail, Young menciona o valor de US$ 3 mil (R$ 9,5 mil) por dia.
Sua família deu a ela suas economias, organizou eventos para arrecadar fundos e conseguiu dezenas de milhares de dólares com a ajuda de uma organização de caridade.
Mas o tratamento não teve o resultado que Naima esperava.
Troca de emails entre Young e Naima ajudou a entender como tudo aconteceu
Em uma manhã ensolarada, nós fomos de carro até os arredores de San Diego, na Califórnia, para visitar Young em seu paraíso milionário conhecido como "Rancho do Milagre do pH".
Enquanto Young nos recebia, nosso olhar foi atraído por um aquário vazio incrustado na parede que separa a sala da cozinha. Ele notou nosso interesse e passou a compartilhar sua visão alcalina do mundo, começando pelo que chama de metáfora do aquário vazio.
"Se um peixe está doente, o que você faz? Trata o peixe ou troca a água?", disse ele, emendando em seguida: "Em seu estado perfeito, o corpo humano é alcalino por natureza."
O pH do nosso sangue é de 7,4, ou seja, ligeiramente alcalino. Então, em termos gerais, Young está certo - ainda que diferentes partes de nosso corpo, como o estômago, funcionem com diferentes níveis de pH.
Mas é a partir daí que a visão de uma "vida alcalina" de Young torna-se uma fantasia completa. Ele acredita que, para manter o pH de nosso sangue, devemos ingerir alimentos "alcalinos".
O principal problema é não levar em conta nosso estômago, que funciona com um pH de cerca de 1,5 e é a região mais ácida do corpo. Portanto, tudo que ingerimos, seja qual for seu pH, torna-se ácido antes de chegar ao intestino.
Além disso, a classificação de comidas como alcalinas e ácidas nessa dieta não parece seguir nenhuma regra consistente - certas frutas cítricas (repletas de ácido cítrico) são consideradas alcalinas, por exemplo.
No entanto, a visão de Young de que a alcalinidade é boa e a acidez é ruim vai além dos alimentos. Ele nos disse: "Toda doença pode ser prevenida controlando o delicado equilíbrio do pH dos fluidos do corpo".
Young acredita que, quando seu sangue se torna ácido, algo estranho acontece, e as células sanguíneas se transformam em bactérias - um fenômeno que ele chama de pleomorfismo - e geram uma doença.
Essa visão vai contra todo o conhecimento científico atual. Quando dissemos isso a ele, Young simplesmente discordou. "Germes nada mais são que a transformação biológica da matéria animal ou vegetal. Eles nascem a partir disso."
Isso é uma "pós-verdade".
Young (dir.) vive em um rancho milionário nos arredores de San Diego, na Califórnia
O maior problema é Young acreditar que doenças surgem a partir da acidez e, portanto, podem ser revertidas por meio da alcalinidade - ecoando sua metáfora do aquário que você não trata a doença, você muda o ambiente em que ela se desenvolve.
Quando Young disse que Naima receberia cuidados em um ambiente supervisionado, ele se referiu a seu rancho, em que uma grande área foi convertida em uma "clínica" para tratamento de câncer.
Young nos disse que usa o termo "cancerígeno" como um adjetivo para descrever um estado de acidez.
Desde 2005, ele recebeu mais de 80 pacientes terminais em seu rancho. O tratamento feito ao longo de alguns meses inclui infusões intravenosas de uma solução alcalina feita com bicarbonato de sódio. Foi isso que ele ofereceu a Naima.
Não há dúvidas do impacto do e-mail de Young sobre a oficial britânica. Em resposta à oferta, Naima respondeu: "Em alguns meses, serei declarada curada".
"Naima estava muito confiante de que, com sua força de vontade e essa terapia, ela se curaria", disse seu amigo Afzal.
Dissemos a Young que uma pessoa em estado terminal como Naima, desesperada por uma cura, compraria qualquer coisa que ele dissesse, faria qualquer coisa para melhorar.
"Mas eu não estava vendendo nada a ela... Não a forcei a vir aqui, foi uma decisão dela", ele respondeu. Mas, em outro e-mail, Young insistiu para que Naima pagasse pelo tratamento antes de viajar para seu rancho.
Young insistiu por email para que a oficial pagasse pelo tratamento antes de viajar para seu rancho
Ao todo, Naima e sua família pagaram mais de US$ 77 mil (R$ 244 mil) a Young pelo tratamento.
"Médicos precisam ser pagos, as pessoas que fazem as massagens precisam ser pagas, assim como o material usado. Mas dei a ela o melhor preço possível" disse Young.
Não há qualquer evidência que infusões de soluções alcalinas na corrente sanguínea tenham qualquer efeito contra câncer. Diante disso, Young disse: "Isso precisa ser estudado".
Depois de cerca de três meses no rancho de Young, Naima piorou e foi levada para um hospital. Depois, viajou de volta para o Reino Unido, onde morreu junto à sua família. Ela tinha 27 anos.
"Eles se sentiram completamente traídos. É horrível que alguém possa explorar as pessoas. Acho isso o elemento mais perturbador de tudo: que, por dinheiro, ele destrua vidas", disse Afzal.
No ano passado, Young foi condenado por praticar medicina sem licença
As atividades de Young em seu rancho não passaram despercebidas. Em 2011, o Conselho de Medicina da Califórnia começou uma investigação em segredo depois de uma mulher tratada no local manifestar suas preocupações.
Investigadores identificaram 15 pacientes com câncer que passaram por lá - nenhum deles sobreviveu.
Um deles, Genia Vanderhaeghen, morreu de insuficiência cardíaca congestiva - fluídos em torno do coração - enquanto era tratada. Young nos disse que estava "viajando" na época.
De acordo com documentos obtidos por nós, ela havia recebido 33 infusões intravenosas de bicarbonato de sódio, cada uma a um custo de US$ 550 (R$ 1,7 mil), ao longo de 31 dias. Algumas foram administradas pelo próprio Young.
No ano passado, Young foi considerado culpado de praticar medicina sem licença, e, agora, pode ficar até três anos preso. No julgamento, foi revelado que ele não é médico e que comprou seu diploma de PhD.
Perguntamos se ele sentia remorso pelo que fez. "Não, porque milhares ou até mesmo milhões de pessoas foram ajudadas pelo programa (da dieta alcalina)", Young respondeu.