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domingo, 10 de outubro de 2010

Soluços - Quando éramos peixes.....



Este incômodo tem origem na história que partilhamos com os peixes e os girinos.

Se quer um consolo por ter soluços, pense que a nossa aflição é partilhada por muitos outros mamíferos. Os gatos podem ser estimulados a ter soluços enviando um impulso elétrico a uma pequena porção de tecido no tronco cerebral. Julga-se que esta zona do tronco cerebral seja o centro que controla o reflexo complicado a que chamamos soluço.

O reflexo do soluço é uma contração estereotipada que envolve uma série de músculos na parede do corpo, diafragma, pescoço e garganta. Um espasmo em um ou dois dos principais nervos que controlam a respiração faz com que estes músculos se contraiam. Isto tem como resultado uma inspiração de ar muito brusca. Depois, cerca de 35 milissegundos mais tarde, uma aba de tecido na parte de trás da garganta (a glote), fecha o topo da via respiratória.

A inalação rápida, seguida por uma breve oclusão do tubo, produz o «soluço».

O problema é que raramente sentimos um único soluço. Se pararmos os soluços nos primeiros cinco a dez soluços, temos boas probabilidades de parar o ataque. Se perdermos essa oportunidade, o ataque de soluços pode continuar por uma média de cerca de sessenta soluços. Inalar dióxido de carbono (respirando para dentro de um saco de papel) e esticar a parede do corpo (inalar profundamente e conter a respiração) pode acabar rapidamente com os soluços em algumas pessoas. Mas não em todas. Alguns casos de soluços patológicos podem ser extremamente prolongados. O ataque de soluços ininterruptos mais longo numa pessoa durou de 1922 a 1990.

A tendência para desenvolver soluços é outra influência do nosso passado. É necessário ter dois pontos em consideração. O primeiro é o que causa o espasmo dos nervos que dá início ao soluço. O segundo é o que controla esse soluço característico, a inalação abrupta oclusão da glote. O espasmo nervoso é resultado da nossa história como peixes, ao passo que o soluço é consequência da história que partilhamos com animais como os girinos.

Em primeiro lugar vamos aos peixes. O nosso cérebro consegue controlar a respiração sem qualquer esforço consciente de nossa parte. A maior parte do trabalho tem lugar no tronco cerebral, na fronteira entre o cérebro e a espinal-medula. O tronco cerebral envia impulsos nervosos aos nossos músculos respiratórios principais. A respiração segue um padrão. Os músculos do peito, do diafragma e da garganta contraem-se numa ordem bem definida. Consequentemente, esta parte do tronco cerebral é conhecida como «gerador de padrão central». Esta região pode produzir padrões rítmicos de ativação nervosa e, consequentemente, muscular. Uma série desses geradores no cérebro e na espinal-medula controlam outros comportamentos rítmicos, como o engolir e o andar.

O problema é que originalmente o tronco cerebral controlava a respiração nos peixes.
Foi alterado para funcionar nos mamíferos. Os tubarões e os peixes ósseos têm todos eles uma porção do tronco cerebral que controla a ativação rítmica de músculos na garganta e em redor das guelras. Os nervos que controlam estas áreas têm origem numa porção bem definida do tronco cerebral. Podemos mesmo ver essa disposição nervosa em alguns dos mais primitivos peixes do registo fóssil. Ostracodermos antigos, de rochas com mais de 400 milhões de anos, preservam moldes do cérebro e dos nervos cranianos. Tal como acontece nos peixes vivos, os nervos que controlam a respiração prolongam-se do tronco cerebral.

Isto resulta bem nos peixes, mas é uma disposição terrível para os mamíferos. Nos peixes, os nervos que controlam a respiração não precisam de viajar para muito longe do tronco cerebral. Regra geral, as guelras e a garganta cercam esta zona do cérebro. Nós, mamíferos, temos um problema diferente. A nossa respiração é controlada por músculos na parede do peito e pelo diafragma, a película de músculo que separa o peito do abdómen. A contração do diafragma controla a inspiração. Os nervos que controlam o diafragma saem do nosso cérebro, tal como o fazem nos peixes, partindo do tronco cerebral, perto do nosso pescoço. Estes nervos, o vago e o frénico, estendem-se da base do crânio e atravessam a cavidade torácica até chegar ao diafragma e a partes do peito que controlam a respiração. Este percurso sinuoso levanta um problema. Uma concepção racional faria com que os nervos partissem não do pescoço, mas de mais perto do diafragma. Infelizmente, tudo o que interfere com um destes nervos pode bloquear a sua função ou provocar um espasmo.

Se o percurso bizarro dos nossos nervos é resultado do nosso passado como peixes, o soluço em si é provavelmente consequência da nossa história como anfíbios. Os soluços são únicos nos nossos comportamentos de respiração, sendo uma inalação abrupta de ar, seguida pela oclusão da glote. Os soluços parecem ser controlados por um gerador de padrão central, uma vez que, tal como em outros comportamentos rítmicos, durante um soluço tem lugar uma dada sequência de acontecimentos.

Ao que parece, o gerador de padrão responsável pelos soluços é virtualmente idêntico a um presente nos anfíbios. E não em qualquer anfíbio - nos girinos, que se servem tanto de guelras como de pulmões para respirar. Os girinos usam este gerador de padrão quando respiram pelas guelras. Nessa circunstância, querem bombear água para a boca e garganta e através das guelras, mas não querem que a água entre nos pulmões. Para evitar que tal aconteça, fecham a glote, a aba que bloqueia o tubo respiratório.
E, para fechar a glote, os girinos têm um gerador de padrão central no tronco cerebral, pelo que uma inspiração é seguida de imediato pela glote ao se fechar. Eles conseguem respirar pelas guelras graças a uma forma prolongada de soluço.

Os paralelos entre os nossos soluços e a respiração pelas guelras dos girinos são tão extensos que houve quem propusesse que os dois fenômenos são a mesma coisa. A respiração pelas guelras nos girinos pode ser bloqueada pele dióxido de carbono, tal como os nossos soluços. Também podemos bloquear a respiração pelas "guelras" esticando a parede do peito, da mesma forma que podemos parar os soluços inspirando profundamente e sustendo a respiração.
Talvez até possamos bloquear a respiração pelas guelras nos girinos se os fizermos beber um copo de água de cabeça para baixo.

Extraído de Quando Éramos Peixes. Neil Shubin. Estrela Polar

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